
Quando nos pedem para escolher o nosso final de romance preferido, é natural que nos lembremos de imediato dos nossos romances de eleição. No entanto, no meu caso, estes com frequência não têm uma história no sentido convencional dessa noção, ou, pelo menos, não é essa a sua dimensão primordial ou a que me interessa; portanto, será um pouco difícil encontrar algum fim espectacular ou inesperado, como acontece muitas vezes nos romances mais tradicionais ou nos de tema policial ou de suspense, por exemplo. Para que a minha opção não resultasse demasiado insonsa, resolvi escolher um romance que vive muito da sua história (embora organizada mediante a sobreposição de diferentes planos narrativos, em que presente e passado se interligam mediante as vozes e memórias de distintos personagens) e cujo final, apesar de expectável e, em certa medida, sabido deste o miolo na narração, não deixa por isso de ter um impacto no leitor, não tanto por questões de surpresa ou espectacularidade, mas por ser o corolário de uma escrita magnífica, em que cada palavra foi criteriosamente escolhida e cada frase depurada ao extremo, cuja tensão não deixa de ser incrementada até à sua frase final. Falo de Pedro Páramo, de Juan Rulfo.
O romance inicia-se com a chegada a Comala de Juan Preciado, cumprindo a promessa que fizera à sua mãe moribunda de procurar o seu pai, Pedro Páramo, a quem não havia conhecido. Quando se apercebe de que está no meio de um mundo de mortos, falece aterrorizado e a sua voz dá lugar ao sussurrar dos defuntos que relatam os factos que sucederam em Comala no tempo de Pedro Páramo. As vozes silenciosas dos protagonistas nascem em torno desse ambiente fantasmagórico e vão encadeando a história.
Pedro Páramo é a figura que aglutina as demais. Em breves traços obtemos uma visão da sua vida desde a infância até à velhice: ir-se-á convertendo no cacique violento e cobiçoso que sonha possuir tudo, empregando para esse fim qualquer método, ao mesmo tempo que desenvolve um amor sem limites por Susana San Juan, a quem conhece desde a sua infância. Ele, que conseguiu tudo, não conseguirá o amor de Susana. O desespero em que o submerge a morte de Susana (Enterraram Susana San Juan e poucos em Comala o souberam.) e a afronta inconsciente da terra ao festejar o dia de feira (Havia feira. Jogava-se aos galos, ouvia-se a música, os gritos dos bêbedos e das lotarias.), supõem a ruína de Comala (Jurou vingar-se de Comala: – Cruzarei os braços e Comala morrerá de fome. E assim fez.). Por isso, quando Juan Preciado chega, encontra-se com um povoado desértico, com o reino da morte. O romance termina precisamente com a esperada morte de Pedro Páramo, que não sobreviveu muito tempo à sua amada. Se por um lado não deixamos de sentir alguma satisfação com isso, na confirmação de que todos os filhos da puta têm o seu fim e que geralmente são festim de abutres, por outro não deixamos de sentir pena pelo ser humano, fabricação do seu tempo e das suas circunstâncias:
Sentiu que umas mãos lhe tocavam nos ombros e endireitou o corpo, endurecendo-o.
– Sou eu, dom Pedro – disse Damiana. – Não quer que lhe traga o almoço?
Pedro Páramo respondeu:
– Vou a caminho. Já vou.
Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e tentou caminhar. Alguns passos depois caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma só palavra. Deu um golpe sêco contra a terra e foi-se desmoronando como se fosse um monte de pedras.
(publicado no Jornal de Letras de 15 de Julho de 2009)
7 Comentários:
Caro Rui,
"A Escada de Penrose" é um blogue que, se me permite a expressão, "faz bem à alma"! Obrigado!... e obrigado também por me ter integrado na "Coluna de Opinião".
Um abraço,
Ana Paula Fitas
Cara Ana Paula,
Obrigado pelas suas palavras. E está na coluna de opinião com todo o mérito, e passarei a segui-la com mais atenção. Tanto mais que a partir de segunda-feira seremos "colegas".
Um abraço,
RH+
E aqui está descrito, de uma forma um tanto resumida, ao mesmo tempo, um tanto avassaladora, de que ninguém, pode ter tudo o que quer, por muito poder que tenha.
Sabendo-se isto e mesmo assim, repetindo-se incessantemente este facto, na História Humana. Acontece que a mim dá-me dó, que o ser humano, não compreenda tal facto e na busca do impossível, se transforme num monstro! A fabricação do seu tempo (humano) gera sempre, estes monstros em grande quantidade; a suficiente para o mundo humano, seja um leito de morte extremamente abrangente e hediondo.
a ilustração está fantástica!
Confirmo o que disse no primeiro comentário da nova era da Escada: é sempre a subir.
Gostei muito deste texto.
Apesar de ser um romance fora do contexto e do estereótipo a que estamos habituados a ler (é quase uma novela), Pedro Páramo não é de facto fácil de acompanhar devido à sua subtileza, que ombreia com a simplicidade da escrita. O que nos encoraja é saber que os que se julgam grandes afinal são tão pequenos quanto os pequenos, e que os vermes lá estão pacientemente à espera, tanto de uns como de outros.
Relembro que Juan Rulfo também tem A Planície em Chamas, que é provavelmente o melhor livros de contos que já li (e indescutivelmente o livro de contos que eu gostaria de ter escrito).
Curioso é que ninguém conhece este magnífico escritor. Vai toda a gente para o Garcia Marquez que, em minha opinião, nem lhe chega aos joelhos. É a diferença entre ter graça ou ser engraçado.
Façam a devida publicidade, que não somos obrigados a saber tudo...
Por acaso sou grande fã de García Marques!
Agora já sei...
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