9 de Fevereiro de 2010


Em exibição: Twin Peaks, de David Lynch

Quando o bobo da côrte vira rei

Quem seguiu, com alguma atenção, a actualidade política dos últimos dias, centrada sobretudo nas questões do défice e do endividamento público, desde a apocalíptica declaração do comissário Almunia ao debate das alterações à Lei das Finanças Regionais, não pode deixar de pensar que a política se transforma, com a maior das facilidades, em comédia de enganos. Ninguém desconhece que o país, em matéria de endividamento, está condicionado aos limites impostos pela Europa monetarista. E toda a gente sabe que na fase actual do capitalismo – um capitalismo tão selvagem que quase deu em bancarrota – agências de rating sedeadas na América (nem sequer há uma europeia), que, aliás, se têm enganado abundantemente em diagnósticos financeiros, gostam de abrir as portas aos especuladores financeiros. Então, Portugal é presa fácil. A isso acresce o disparate do Sr. Almunia sobre a situação portuguesa, que a Comissão Europeia se viu obrigada a emendar. Nós, portugueses, é que nos amolamos.

Neste contexto de dificuldades, assistimos ao péssimo espectáculo da Assembleia da República, no tocante à aprovação de uma nova Lei das Finanças Regionais. A oposição, numa convergência da esquerda com a direita – perdão – da direita que se senta à esquerda do PS com a que se senta efectivamente à sua direita, que há muito, parece, deixou de ser espúria, escolheu este momento para aprovar um documento legislativo com interferência directa na política orçamental, com um frenesi de pressa que não admitiu adiamento. No fundo, contrariando o interesse nacional e a necessária perspectiva de contenção, que nos obriga a apertar o cinto. Será que estes actores políticos não sabem que a demagogia, em última análise, apenas engana os idiotas úteis? Ora, o que está em causa é continuar a dar luz verde ao regabofe despesista do Sr. Alberto João Jardim, que goza de estranha complacência, que recorrentemente insulta os governos da República, que magnânimamente lhe têm perdoado centenas de milhões de dívida, à nossa custa. Não é apenas o montante – 50 milhões daqui, mais 50 dali... –; é sobretudo o princípio. As regiões pobres do Continente não gozam da mesma sorte. Ainda agora, a Beira Interior viu congeladas vias fundamentais para o seu desenvolvimento, mas isso não tira o sono aos senhores deputados, nem os faz dar um ai ou ui. Isso não lhes pisa os calos da política. O que interessa, pelos vistos, é dar essa palmada nas costas ao amigo da Madeira, mesmo que ele continue a chamar-lhes cubanos e outros mimos que, por pudor, não me atrevo a repetir. Siga o regabofe.

8 de Fevereiro de 2010

Roteiro gastronómico

Bairro Alto, Lisboa

Princípios da propaganda nazi (2/2)


1. Simplificação: Adoptar uma única ideia, um único símbolo. Individualizar o adversário num único inimigo.

4. Exagero e desfiguração: Converter qualquer história, por menor que seja, numa ameaça grave.

6. Orquestração: A propaganda deve limitar-se a um número pequeno de ideias e repeti-las incansavelmente, apresentando-as uma e outra vez, de diferentes perspectivas, mas sempre convergindo para o mesmo conceito, sem fissuras nem dúvidas.

7. Renovação: Emitir sempre informações e argumentos novos a um ritmo tal que quando o adversário responda, o público já esteja interessado em outra coisa.

8. Verosimilhança: Construir argumentos a partir de fontes diversas, através de informações fragmentárias.

9. Silenciamento: Encobrir as questões sobre as quais não tenha argumentos e dissimular as notícia que favorecem o adversário, contra-programando com a ajuda dos meios de comunicação afins.

10. Transfusão: A propaganda opera sempre a partir de um substrato preexistente, seja uma mitologia nacional, ou um complexo de ódios e preconceitos tradicionais. Trata de difundir argumentos que possam arraigar-se em atitudes primitivas.

11. Unanimidade: Convencer as pessoas de que pensam como toda a gente, criando uma (falsa) impressão de unanimidade.

Súmula operacional dos princípios de Goebbels sacada daqui.

Princípios da propaganda nazi (1/2)


Principle 1: Propagandists must have access to intelligence concerning events and public opinion

Principle 3: The propaganda consequences of an action must be considered in planning that action

Principle 6: To be perceived, propaganda must evoke the interest of an audience and must be transmitted through an attention-getting communications medium

Principle 7: Credibility alone must determine whether propaganda output should be true or false

Principle 11: Black rather than white propaganda must be employed when latter is less credible or produces undesirable effects

Principle 13: Propaganda must be carefully timed

Principle 16: Propaganda to the home front should create an optimum anxiety level

Principle 18: Propaganda must facilitate the displacement of aggression by specifying the targets for hatred

in Goebbels’ Principles of Propaganda, de Leonard W. Doob

7 de Fevereiro de 2010


Em escuta: Beck, All tomorrow's parties
(projecto
Record Club)

Auto-retrato (feminino) do artista enquanto dorme

A minha mulher, a minha Mary, adormece como se fecha a porta de um armário. Quantas vezes a contemplei com inveja? Enrosca o lindo corpo como se se instalasse num casulo, suspira, os olhos fecham-se e os lábios tomam a forma daquele sorriso sábio e vago dos antigos deuses gregos. Ela sorri toda a noite no seu sono e a respiração faz ronrom na garganta. Não ressona, ronrona como um gatarrão. Durante alguns momentos a sua temperatura sobe a tal ponto que a sinto irradiar calor junto de mim. Depois desce, e Mary como que se afasta. Não sei para onde. Ela diz que não sonha. Mas, no entanto, deve sonhar. O que sucede é que os sonhos não a perturbam, ou então perturbam-na de tal maneira que os esquece antes de acordar. Gosta de dormir, e o sono faz-lhe bem. Queria ser como ela. Luto contra o sono e desejo-o com ânsia.

Talvez, digo a mim próprio, isso seja devido ao facto de a minha Mary saber que viverá para sempre. Passará desta existência a outra com a mesma facilidade com que se passa do sono ao despertar. Todo o seu corpo o sabe com uma tal certeza que ela não pensa nisso, como não pensa em respirar. Assim tem tempo de dormir, de repousar, de cessar de existir por algum tempo.

in O inverno do nosso descontentamento, de John Steinbeck

6 de Fevereiro de 2010


Em exibição: vídeo da Amnistia Internacional contra a pena de morte
(com o actor
Jeremy Irons)

Regresso ao passado

As comemorações do centenário da República iniciaram-se no passado fim-de-semana e por mais de uma vez ouvi na televisão o que aliás também li na manchete de um jornal diário: que a República e a revolução que a implementou «não são consensuais». É uma sentença curiosa, esta, manejada evidentemente com o objectivo de diminuir e corroer o significado do facto histórico. A verdade é que, como o elementar bom senso ensina, uma revolução nunca é consensual, pois é feita sempre contra um anterior estado de coisas cujos defensores sobrevivem politicamente à derrota e assim se mantêm por muitos anos. Olha-se a Revolução Francesa, a que deu ao mundo, entre outro património, os agora incontestáveis Direitos do Homem, e sabe-se que ainda hoje ela não é consensual, nem em França nem noutros lugares. E não escandalizará que se recorde que nem em Portugal é inteiramente consensual o 1º de Dezembro de 1640, podendo talvez presumir-se que o mesmo ocorrerá em Espanha. Porém, o que porventura mais importa, na verificação deste início pouco auspicioso das comemorações do centenário da República, é apercebermo-nos de que contra ela, a República Portuguesa tal como existiu nos dificílimos dezasseis anos que antecederam 1926, vão ser disparados nos próximos meses as manipulações, as calúnias, as falsificações, que abundaram entre o 28 de Maio e o 25 de Abril. É previsível que assistamos ao regresso do intenso bombardeamento propagandístico de que a República foi alvo durante a ditadura. Nos tempos próximos saberemos se haverá quem, nos meios de comunicação e fora deles, reponha com eficácia as verdades mais importantes. Ou se o triste espectáculo a que continuamos a assistir, e que hoje teve mais um capítulo, não é, vilmente mascarado com as caraças da Democracia e da Liberdade, uma enorme maquinação para o regresso de um vergonhoso passado que tanto custou a erradicar.

5 de Fevereiro de 2010


Em exposição: Anunciação, de Fra Angelico

Um país perigoso, gente perigosa


Não sei se muitos já se aperceberam disso, mas estamos a criar um país perigoso.

É perigoso:

- Um país em que se banalizam as escutas telefónicas como meio de prova e, pior, mesmo que inválidas, publicam-nas impunemente na internet e meios de comunicação social;

- Um país em que qualquer pessoa já pensa duas vezes antes de falar ao telefone;

- Um país em que se faz política com base em escutas telefónicas judiciais declaradas nulas;

- Um país em que um Juiz de um Tribunal de 1.ª Instância, impunemente, não cumpre despachos do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça;

- Um país em que a maior parte dos casos mediáticos e importantes vão parar às mãos de um único Juiz de Instrução (como acontece no DCIAP);

- Um país em que um jornalista (à noite) e opinion maker (de manhã) pretende noticiar e opinar com base em alegadas escutas de um amigo de supostas conversas de café de terceiros;

- Um país em que um grupo de deputados do partido do governo propõe a publicação na internet dos rendimentos dos cidadãos como forma de combate à fraude e corrupção.

Isto não é o país das maravilhas… Temos muitos problemas. Mas talvez seja melhor ter alguns corruptos, do que viver num país de bufos, invejosos e vouyeurs. Espanta-me ver tanta gente a apoiar determinadas causas e a achar que os fins justificam todos e quaisquer meios. Repito: isso é perigoso, muito mesmo…

Francisco Proença de Carvalho
(no insuspeito 31 da Armada)

Boçalidade milionária

Deu brado a recente entrevista de Belmiro de Azevedo à revista Visão. Como se sabe, o brado resultou não do acerto inovador de quanto se disse mas sim da presunçosa impertinência em que o venerando engenheiro voltou a insistir. Em verdade, sendo o senhor engenheiro um figura destacada da sociedade portuguesa, é uma pena que não tenha tido oportunidade de receber educação em dose bastante para que não fizesse aquela triste figura: a de um sujeito que do alto do muito dinheiro amontoado se julga com o direito de ser malcriado, vertendo insolências como quem transpira suores de axilas mal lavadas. Tem, contudo, admiradores, como bem se compreende, e um deles fez notar, no programa Eixo do mal, da SIC Notícias, que «Belmiro é o maior empregador do país». Será. Mas talvez caiba ainda indagar se essa bonita posição empresarial não tem nada a ver com salários baixos a remunerarem trabalhos intensos e extenuantes a prolongarem-se por muitas horas mal pagas.

4 de Fevereiro de 2010


Em escuta: Tom Waits, Shore leave
(álbum
Swordfishtrombones)

Nota do terrível censor


O que de diferente se passou com o artigo previsto para segunda-feira passada é que ele, no entender do director, não era um simples texto de Opinião. Mário Crespo noticiava uma alegada conversa de restaurante que lhe tinha sido relatada por um terceiro e em que os intervenientes se referiam a ele, Mário Crespo, em termos tidos por desprimorosos e ao engulho que ele representaria para o Governo.

O que transmiti a Mário Crespo, e ontem ficou consignado em nota editorial, é que o seu texto era quase uma notícia e fazia referências a factos que suscitavam duas ordens de problemas: por um lado necessitavam de confirmação, de que fosse exercido o direito ao contraditório relativamente às pessoas ali citadas; por outro lado, a informação chegara a Mário Crespo por um processo que o JN habitualmente rejeita como prática noticiosa; isto é: o texto era construído a partir de informações que lhe tinham sido fornecidas por alguém que escutara uma conversa num restaurante. O telefonema para Mário Crespo visava que tentássemos os dois encontrar uma solução, uma vez que a publicação do texto me levantava sérias e fundadas dúvidas. Mário Crespo optou por retirar, repito: Mário Crespo optou por retirar, pura e simplesmente o artigo e cessar ali mesmo a colaboração com o JN.

Lamento, apenas, a hora tardia (23 e 15 e não meia-noite como Crespo tem referido) a que o contacto foi estabelecido. O facto é que o texto só foi visto - como é normal no JN - à hora de fecho, na altura de a direcção dar o visto de bom à página; e, estando eu de folga, só tardiamente fui alertado por outro membro da direcção para o conteúdo do texto. Mas é outra prova de boa-fé: no JN os textos de Opinião são directamente encaminhados para as páginas.

(...)

É por isso que, embora correndo o risco de poder parecer cínico aos olhos dos que me conhecem menos bem, quero deixar claro que Mário Crespo, o mesmo Mário Crespo que foi colunista do JN até anteontem, pode contar com o meu apoio se e quando ficar provado que está a ser perseguido. Mas não alimentarei a sua vitimização pessoal e, sobretudo, não atropelarei princípios em que acredito.

Assim se esvai a vida


O novo livro de Urbano Tavares Rodrigues, Assim se esvai a vida, com chancela da Dom Quixote, é apresentado esta tarde, às 18h30, na Livraria Barata da Av. de Roma, por Francisco José Viegas.

Na realidade, são três livros num só:
  • A novela Assim se esvai a vida é uma sequência um tanto arbitrária de incidentes da resistência à ditadura salazarista em que personagens inventadas se mesclam com outras reais e onde as cenas eróticas, por vezes muito cruas, alternam com momentos poéticos, numa sarabanda original e inesperada. Avultam as intentonas para derrubar o regime e a luta nas trevas, a par de visões da vida cultural e da autêntica revolução sexual provocada, em certos meios, pelo aparecimento da pílula anticoncepcional. Uma obra de ficção arrojada e fascinante.
  • Em O cornetim encarnado, que separa esta novela dos contos da terceira parte, descansa o leitor da ilusão romanesca, lendo memórias avulsas, reflexões e poemas, um estimulante trabalho de metaliteratura em que o autor se expõe como nunca até hoje. Páginas provocatórias e outras até de sofrimento a nu.
  • De Os olhos do demónio e outros contos diremos que são talvez os melhores de Urbano Tavares Rodrigues, pela beleza e arrojo da escrita, pelo insólito dos temas e até pelo aparecimento de micronarrativas, novas na sua obra.