Em exibição: Men in film / Women in film, por Philip Scott Johnson
20 de Novembro de 2009
Um homem qualquer
A cena é tão bela que provoca náuseas. Um homem – ou uma mulher, dá igual – afina o seu perfil no Facebook. Ou envia um SMS. Ou seduz uma adolescente no – digamos – Second Life. Melhor: um homem lê um texto, um texto qualquer, na internet. Um homem lê um texto na internet e uma frase arrasta-o para a seguinte e, de repente, um link dispara-o para outro texto, profusamente ilustrado, que não tarda em ricocheteá-lo para um blogue que reproduz um vídeo, copiado de outro sítio, para acabar comprando, nove ou dezasseis cliques mais tarde, um bilhete de avião – ou um computador mais potente – numa inesperada dobra da rede.
O belo: quando o homem volta para a cama, tem a seu lado, sobre a mesa-de-cabeceira, um anacrónico romance de costumes. Ou romântico. Ou elementarmente histórico. Isso agrada-lhe: que os livros contemporâneos não o pareçam. Que tudo mude mas não a Literatura. Que as obras literárias, boas ou más, se mantenham lineares, sucessivas, coerentes, humanistas, reconfortantes, reaccionárias. Este homem é, portanto, quase todos os homens.
O belo: quando o homem volta para a cama, tem a seu lado, sobre a mesa-de-cabeceira, um anacrónico romance de costumes. Ou romântico. Ou elementarmente histórico. Isso agrada-lhe: que os livros contemporâneos não o pareçam. Que tudo mude mas não a Literatura. Que as obras literárias, boas ou más, se mantenham lineares, sucessivas, coerentes, humanistas, reconfortantes, reaccionárias. Este homem é, portanto, quase todos os homens.
19 de Novembro de 2009
Freixos à beira da estrada
Há momentos inolvidáveis, instantes do quotidiano que nos deixam suspensos da realidade, aquele fiozinho de tempo de uma humanidade longa e eterna que nos compensa da existência baça dos dias e que às vezes é tão pouco. Esta felicidade mínima pode estar em múltiplas circunstâncias: colher-se de um sorriso, viver-se na emoção estética da música ou da pintura, ou subitamente na página de um livro – o que nos faz parar a leitura e fechar os olhos de prazer. Essa mínima felicidade de que falo está tantas vezes ao nosso alcance, na luz e na sombra que invade à paisagem, no sol que acende de fogo o horizonte infinito do fim da tarde, nas grandes serras paradas – como dizia Torga.
Ainda um dia destes, passeava de bicicleta por uma estrada de colinas, pela sombra de bosques que o sol rompia em mil transparências, e depois olha!, a lenta mutação surgiu com uma chuva tímida; as folhas na sua transmutação cromática, o tapete do bosque onde apetece afundar os pés, uma brisa suave que fazia balançar a copa das árvores. É o Outono, sempre deslumbrante na tranquilidade do seu andamento, pensava eu, enquanto olhava os freixos à beira da estrada, sempre os primeiros a desfazer-se em luz e em cores que não duram mais que uma semana. Que se lixe a melancolia.
Ainda um dia destes, passeava de bicicleta por uma estrada de colinas, pela sombra de bosques que o sol rompia em mil transparências, e depois olha!, a lenta mutação surgiu com uma chuva tímida; as folhas na sua transmutação cromática, o tapete do bosque onde apetece afundar os pés, uma brisa suave que fazia balançar a copa das árvores. É o Outono, sempre deslumbrante na tranquilidade do seu andamento, pensava eu, enquanto olhava os freixos à beira da estrada, sempre os primeiros a desfazer-se em luz e em cores que não duram mais que uma semana. Que se lixe a melancolia.
18 de Novembro de 2009
Long or short
I'm not interested in writing short stories. Anything that doesn't take years of your life and drive you to suicide hardly seems worth doing, afirma o escritor norte-americano Cormac McCarthy, em entrevista ao Wall Street Journal.
Também penso assim, mas cada vez me dá mais gozo escrever contos e cada vez os romances me demoram menos. Mas são mais dolorosos, como se deixassem de ser uma doença prolongada e se convertessem numa fulminante. Se são melhores, não sei. Gosto de pensar que sim.
17 de Novembro de 2009
Nascer melhor
O Movimento Nascer Melhor teve origem numa reunião realizada em Viana do Castelo, a 14 de Março de 2009, envolvendo representantes dos vários sectores da sociedade portuguesa ligados ao momento do parto, incluindo médicos obstetras, médicos de família, enfermeiros especialistas de saúde materna e obstétrica, mães, psicólogos, jornalistas, doulas, associações profissionais, de consumidores, professores das faculdades de medicina e das escolas superiores de enfermagem. Desse encontro saiu um documento de consenso sobre os 10 princípios essenciais a considerar no estabelecimento de estratégias futuras para os cuidados de saúde nesta área: Os 10 Princípios de Viana. Destes, parecem-me particularmente significativos os seguintes:
3. O trabalho de parto de início espontâneo que culmina num parto eutócico (parto vaginal sem intervenções) e decorre entre as 37 e as 42 semanas, é actualmente a forma mais segura de nascimento.
4. O recurso ao parto induzido (provocado artificialmente) e à cesariana sem qualquer motivo de saúde, mas apenas por conveniência dos envolvidos, está associado a maiores riscos e é considerado pela comunidade científica internacional como uma prática injustificada.
4. O recurso ao parto induzido (provocado artificialmente) e à cesariana sem qualquer motivo de saúde, mas apenas por conveniência dos envolvidos, está associado a maiores riscos e é considerado pela comunidade científica internacional como uma prática injustificada.
É possível obter mais informação na recém-disponibilizada página do movimento; movimento cujo mérito reside desde logo, postas de parte discussões médico-científicas para as quais careço de conhecimentos, em pôr o tema em debate na sociedade, mormente o abuso de processos que visam, como diz o ponto quatro, apenas a conveniência dos envolvidos: parturientes, médicos, serviços hospitalares e estatísticas do ministério da saúde. É que ter um filho, para o ser humano, não pode (ou não deve) ser um mero acto de reprodução animal ou de satisfação das necessidades do modelo societário vigente, mas antes, parece-me, um acto de amor.
Imagem: Birth, Atelier Yoyita
Esta tarde conversa-se sobre José Afonso
O Círculo de Leitores editou em Julho mais um número da colecção Fotobiografias Século XX. Desta feita a figura em destaque é o trovador da inquietação, como alguém lhe chamou. Com texto de Irene Pimentel e direcção de Joaquim Vieira, esta obra traça a sua vida e obra desde o seu nascimento, a 2 de Agosto de 1929 em Aveiro, até à sua morte, a 23 de Fevereiro de 1987, com 57 anos. Hoje à tarde, na livraria Círculo das Letras, conversa-se em torno do livro, com as presenças da autora do texto e do coordenador da colecção. Na segunda parte, Francisco Fanhais interpretará alguns temas do cantautor.

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16 de Novembro de 2009
As voltas de um andarilho, de Viriato Teles
Mais informação sobre a obra e o autor disponível aqui.
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